Minas nas garagens dos condomínios

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image Alguns prédios localizados em áreas de baixada têm água para dar e vender no subsolo


De oito em oito minutos, uma água de mina, límpida (mas não potável), inunda um tanque no subsolo da Alferes Domingos, 9, no Cambuí. Quando a bóia aciona o motor da bomba, ela vaza por uma tubulação até a rua, atravessa a céu aberto a Pedro Magalhães e desemboca, sem perdão, numa galeria pluvial da Guilherme da Silva, para nunca mais voltar. É assim por 24 horas, nos 365 dias do ano. Ação semelhante acontece em outro edifício do mesmo endereço, o de número 105, a cada 40 minutos, o que só faz aumentar esta vazão. No chão, lodo, pedras e plantas terminam por compor o cenário que, de repente, ao invés de uma simples guia de calçada, lembra rio, nascente, outro lugar...

Para quem passa, um duplo espanto. Primeiro, pela sensação de ver um riachinho formar-se de tempos em tempos. Segundo porque numa época em que se discute a escassez de água e vislumbra-se, num futuro sombrio, o fim deste recurso natural, parece um contra-senso assistir a tal desperdício, mesmo que no fim do fim, o destino seja um rio (de onde esta mesma água voltará mais tarde, tratada e encarecida, às torneiras residenciais). Tanto que o advogado Antoniel Ferreira Avelino, síndico do primeiro edifício, o Saint Moritz, tem um plano B: um projeto de reforma já desenhado para utilizar esta água internamente, seja para aguar os jardins ou lavar o piso. Apesar disso, reconhece, usará muito pouco deste recurso (cerca de 1/3). "Grande parte vai continuar sendo jogada fora".

Até três meses atrás, Manoel Carlos Egas Cintra, síndico do edifício vizinho ao dele, na Pedro Magalhães, 27, se beneficiava desta mesma água. Durante mais de quatro anos - até a tubulação que passava sob a rua se danificar - o prédio dele conseguia reduzir em 15% ao mês o consumo do condomínio. "O cano ficava na guia do meu prédio. Espetava uma mangueira de incêndio e de lá ela caía na nossa caixa de água pluvial". Depois, utilizava-a com a mesma finalidade futura de Antoniel Avelino: para lavar a garagem e regar o jardim. Mas longe das estatísticas, o dado que se sobressai desta história toda, diz, "é o desperdício que o Estado faz com uma água que está lá". E questiona-se: "Não sei o que significa em termos econômicos explorá-la". Ele decidiu usá-la "porque é uma quantidade enorme de água, e que não é aproveitada". Na sua opinião, a prefeitura ou a Sanasa deveriam fazer um uso dela. "Não é potável, mas pode ser manipulada".

Do outro lado do bairro, na Norte-Sul, o proprietário do Shopping Varandas e topógrafo por formação, José Abel Carvalho de Moura, assiste diariamente à mesma cena. Numa galeria em frente ao prédio, é possível ver, regularmente, a água que brota no subsolo ser dispensada. Sabe também que ela não é potável, mas acha "uma incoerência do cão" não utilizá-la em outras aplicações. "A cada 20 minutos solta água", fala. "É que nem um rio que passa lá embaixo".

Operação de guerra

Três bombas - duas elétricas e uma à gasolina - fazem parte do arsenal do Saint Moritz para evitar um eventual alagamento no subsolo. "Na hipótese de falta de energia, é a bomba à gasolina que entra em operação", explica Antoniel Avelino. Apesar disso, o prédio não se safou de ver seu estacionamento com um palmo de água nos pneus dos carros. "Uma ou duas vezes já aconteceu de alagar". Hoje, felizmente, tem ainda outros recursos, como saídas extras de água e barreiras de contenção (sobretudo para a sala de máquinas).

Já no endereço da Alferes Domingos, 105, são duas bombas e ambas elétricas. Há um revezamento entre elas a cada 15 dias. O porteiro de plantão, Jucélio Matias da Silva, conta que em caso de falha, só há uma saída: chamar o corpo de bombeiros. Mas até agora - está há dois meses neste trabalho - quando houve queda de energia, o restabelecimento do serviço foi rápido.

Saída é ter sistemas separados

Muita água corre sobre as pontes quando o assunto em questão é o seu uso racional. De um lado está a Sanasa (Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento S.A.), empresa de economia mista criada em 1973 para prestar serviço de abastecimento de água e de esgotamento sanitário de Campinas e, de outro, o DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica), órgão gestor dos recursos hídricos do Estado de São Paulo. Para entender o papel de cada um, nem sempre o caminho é curto ou simples.

Quem faz a outorga para qualquer tipo de captação de água é o DAEE. "Se quiserem utilizar, tem que ter autorização deles", explica Silvio Marques, gerente de comunicação da empresa campineira. Mas se o assunto for o uso desta água sem tratamento via o sistema público municipal (leia-se a rede da Sanasa), a resposta é uma só: "Tem que ser dois sistemas separados. Não pode misturar". Em outras palavras, o condomínio teria que construir um encanamento paralelo, o que demandaria não só tempo como dinheiro. Por isso mesmo, diz Silvio, a maioria opta por jogar fora a água, até porque ela não pode ser usada para o consumo humano (em geral não é potável).

Hoje, nos chamados prédios inteligentes, já se prevê sistemas separados, inclusive com medições individualizadas. Mas se o assunto é adaptar, Élcio Linhares Silveira, tecnólogo em obras hidráulicas da diretoria de planejamento e outorga do DAEE, em São Paulo, reconhece que o procedimento é extremamente oneroso.

Mas na sua opinião, até em função do quadro que se desenha sobre a escassez de água no planeta, já era tempo de haver uma gestão conjunta entre Sanasa, Prefeitura Municipal e Estado, para pensar ações neste sentido. "É uma discussão que devia começar para suprir a demanda da falta de água".

E, para que isso acontecesse, não há como negar: ela teria que passar por mudanças de alguns paradigmas, coisa que em países desenvolvidos como o Japão, já estão implementadas. Lá, cita como exemplo, além de as redes serem paralelas para uma coisa e outra - de água potável e de reuso - até as louças sanitárias já foram pensadas para sinalizar isso (uma vez que a própria água tem coloração diferenciada; no caso, azul, quando é para esgoto).

Outra questão a ser ventilada, aponta Élcio, diz respeito à contaminação que este tipo de água está sujeita. E o que é pior: "Alguém pode beber; é um problema relacionado com a saúde pública". Em razão disso, acredita, o tratamento deve atender ao mesmo padrão estabelecido para a rede pública. "Por isso que o uso deve ser meio minimizado. Esse é um problema sério". Uma saída, a partir do Habite-se, seria definir as especificações para o uso dessas águas ainda na planta.

Segundo a professora Sueli Yoshinaga Pereira, do Instituto de Geociências da Unicamp e especialista em águas subterrâneas, prédios como os citados no Cambuí têm o rebaixamento de nível freático e, por isso, a água brota com mais facilidade. "O lençol freático é mais raso do que num morro", compara. E, em geral, é nele que está "o primeiro nível d'água abaixo de qualquer atividade humana". Por isso mesmo, "frágeis em termos de contaminação".

Um terreno assim está sujeito a infiltrações da gasolina de um caminhão que tomba na rua até outros agentes desta natureza. Na opinião de Sueli Pereira há uma ausência de leis específicas para essas questões, inclusive a partir do próprio plano diretor do município. "Uma coisa que falta é um estudo específico para a ocupação urbana", aponta. E reconhece: hoje "o detalhamento desse solo não existe" e isso seria de extrema importância para uma análise mais precisa. (J.G.A)

Fonte: Gazeta do Cambuí



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